Arquivo para março \31\UTC 2015

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mar
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COLÉGIO DA MABE – 94 ANOS


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     Morando no Centro do Rio e estudando no Méier, isto estava com seus dias contados, no longínquo 1992 do impeachment do Collor: em 1993, minha mãe me queria estudando perto de casa. Fomos primeiramente em um colégio no Catete, onde entrava-se às oito da manhã e saía-se às onze, eu mesmo não quis estudar lá; o que se aprende, em uma carga horária tão parca? Minha Mãe foi a um certo colégio alemão, que exigia uma prova para aceitar o aluno. Minha Mãe questionou, pois se tratava de uma escola particular. O senhor da secretaria nos disse “bem, aqui é um colégio alemão”, ao que minha Mãe – quem a conheceu, sabe bem deste estilo – sem levantar um decibel da voz ou esboçar surpresa respondeu: “bem, o dinheiro que uso para pagar é moeda nacional”. O colégio alemão babou…

Um gigantesco colégio católico se descortinava em minha frente – mais uma vez, o convento! – quando, uma vizinha nossa disse: “Porque você não vai à MABE? É um bom colégio!”. Ah, mencionou alguma coisa sobre o Jerry Adriani também…

Era uma sexta-feira muito chuvosa, às vésperas do Carnaval daquele ano. Devia ser perto das 20 horas, fomos até a MABE. Para surpresa nossa, quem estava na secretaria era a dona Zezé – para o leitor querido, sobretudo se for alguém da grande família Mabeana, não há nada demais. Acontece que a dona Zezé de vocês era a minha dona Maria José, a quem eu conhecia desde um sempre. É que eu estudei até a Quarta Série, em um colégio que ficava dentro de um convento, com a filha mais velha dela! Devo admitir que ver a dona Maria José já me deixava “em casa”…

“Está tudo escuro, e com tanta chuva, a pista de Atletismo deve estar alagada”, disse a dona Maria José, mas eu queria ver o colégio, ela não negou isto ao “coleguinha da Paulinha”. Vi mais do que se poderia imaginar: aquele prédio centenário, todas as árvores da cidade estavam lá dentro! Quantos troféus, aquelas inúmeras fotografias do Teatro e do Ballet… Eu queria a MABE, minha Mãe consentiu.

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     Absolutamente tudo na MABE era diferente, das coisas que eu vivera em outras escolas. Posso dizer isto, porque o “Vetusto Educandário” – é, eu lia as circulares, cheguei a colecioná-las! – foi o quarto colégio no qual estudei. No primeiro dia de aula  fui apresentado a um cartão de entrada, com o qual eu deveria diariamente “bater o ponto”, uma novidade que também foi apresentada às minhas filhas, em seus dias de MABE, pela mesma pessoa:

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O SR. FERREIRA! – Aqui, junto do Sergio.

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     Meu destino começava a mostrar para mim tudo o que seria todo o resto da minha vida: minha primeira sala na MABE era a de n° 13, em frente à Mangueira – o professor Antonio Sá disse certa vez: “eu cheguei (à MABE) em 1966, e ela já estava ali – em cujo bloco de pedra conversas, amizades, confidências, lágrimas, paixões, segredos, sofrimentos, brincadeiras, um Mundo inteiro foi idealizado, pelo simples fato de se sentar ali. Aquela pedra tinha o poder divino de erigir o futuro, de quem se sentasse ali, para pensar nisto…

     Entrei naquela sala, com minha famosa pasta preta, acreditem, meus futuros coleguinhas, aspirantes a amigos de uma vida inteira, pensaram que eu era um professor… Bem, o verdadeiro professor não demorou um único instante a chegar, e como disse, o destino estava a me mostrar absolutamente tudo: aquele certo professor, constantemente associado a própria Face do Mal, por inúmeras gerações de ex-alunos, seria o responsável por minha Mãe, em 1995, transferir-me para o derradeiro colégio, da minha vida de aluno.

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     Em um mês, eu já lidava com todos os meus colegas de classe. A primeira pessoa com quem conversei foi Cristina Rodrigues, o segundo Marcelo José. Nesta altura, o Alan já havia proibido que me sacaneassem, embora o Andrés, sem sucesso, o tentara. Andrés, que atendia na época a alcunha de ”Anasta”, também ficara famoso por correr a sala inteira, e lançar todo o seu monstruosos peso sobre uma rachadura no fundo da sala. A rachadura sobreviveu a mais um insucesso de Andrés. Clóvis já havia me aconselhado “a me revoltar”, Petty ria da minha cara, eu ria do Wagner, do Evandro e do Alexander, vugo “Cachorro”. Convivendo com Rafael Bigel, Zé Inácio e Juan, quando me dei conta, ria da maneira como gargalho até hoje. Encarnavam no Franklin, tendo o Luis Carlos Gomes ao lado, sempre quieto, provavelmente acreditando que seria o próximo a ser encarnado. Rubens ficava na periferia, no melhor estilo “come calado” – se tronaria o meu maior amigo! – de um lado, Marcus Coringa e seu bordão ‘Bonito!”, Erislane – outro dia, no noticiário, apareceu algo que aconteceu em Formosa, Goiás, como eu ri! – Tatiane e seu bordão “rala peito”, mais a “Cacau” Claudinha e a Cristina Rodrigues.

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     Aí, vinham Pia e Roberta inseparáveis, Cristina Dias – nossa adorável Nina, um encanto de pessoa, ao lado da Ludmila – um pequeno segredo aqui: meus colegas de classe cansaram de ver os embates entre aquele professor que era a Face do Mal e eu, o que eu jamais exitei dentro do que a razão me permitia. Entretanto, a única pessoa com quem eu não queria me indispor, de maneira alguma, era com “a marrenta” da Ludy, porque certamente se tivéssemos brigado alguma vez, hoje não existiria Carlos Pimenta para escrever estas palavras… A mais forte personalidade que eu já vi, em toda a minha vida! – anos depois, eu teria a honra de ver as duas, na primeira fila, da minha primeira produção teatral…

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Tatiana Vilella colada com Wagner e Aretusa, a Tatiana Mele, um docinho de pessoa, sentava-se do meu lado na sala. Outro docinho de pessoa era a Sandra Catarina. No miolo da sala estavam Marcelle, Elisângela e o Fred – sim, Frederico Carlos, hoje marido dela. Ele nunca estudou na MABE, mas ela falava tanto dele, que ele já era figura presente! -a Vivian e a Simone, as quatro falavam mais do que a sala inteira reunida. Na ponta, em frente ao professor, Tatiana Porto, a Marcia, a Marilene, a Rosiene, a Lucielba, a Claudia Gladys, a Camila e o polêmico Paulinho. Até hoje mantenho minha promessa à professora e sambista Ana Reis, a respeito de maiores considerações sobre ele, favor não insistam!

     Aquela primeira semana, conhecemos a professora Rosária de português, a Cecília de biologia I e o Vitor de biologia II que, sempre que pode, falava sobre AIDS a quem quisesse ouvir. O Mestre José Antonio de história, que vivia a evocar o rei Artur, meu contra parente Renato Pimenta de física, Maricleide e seus experimentos in loco (lembram-se do encontro da lamparina – do Rafael Bigel parece – e do Andrés?) E Maria Angélica de Quimica I e II, o Márcio de Inglês, a charmosa Rosa Maria de Literatura, a Marcia de Moral e Cívica que, cá entre nós, não cheirava e nem fedia, além da professora Cristina de Redação, que carinhosamente fora apelidada de John Lennon..

     E, inesquecivelmente, aquele professor de geografia, a quem apelidaram de “Beto Barbosa do adocica”, com um camisão estampadíssimo, aberto uns três botões, um monte de mapas de todos os países, de todos os planetas do sistema Solar debaixo do braço, avisando que no domingo haveria show do Milton Nascimento no Arpoador, e que ele estaria lá: o sr. Adilson Sacramento!

     Então, comecei a escrever meu Jornal – que o colégio inteira lia, inclusive o prof. Roberto Fontes! – contei algumas piadas, e satirizando o Marcelo José, que ficava gritando “Oe” a torto e a direita, eu imitei o Silvio Santos dizendo ‘Oe”.

     Minha vida não seria mais a mesma!

     De início, a Tatiana Mele me pedia, de cinco em cinco minutos, para imitar o Silvio. Depois, a maioria dos professores davam os 15 minutos do fim de cada aula apenas para as minhas imitações – é claro que a minha turma adorava: quem não gosta de menos aula?

     Em abril, o manicômio fechou suas portas, com o retorno da Raquel Lenti a MABE, nos tornamos, de cara, grandes amigos. Sob a chancela do Marcelo José e do Alan cheguei à Festa Junina, sob as honras do Evandro fui apresentado ao Sr. Fernando Fontes, que viu cada uma das minhas imitações. Riu de absolutamente nada. Disse apenas uma coisa: “Já está escrito no Teatro de Amadores da MABE?”

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     Assim foi o início do resto da toda a minha vida. A MABE está viva, porque eu estou vivo! Uma lembrança muito viva, daquele primeiro mês na MABE foi o dia 31 de março, aniversário do Colégio. Foi a primeira vez que vi a grandeza da MABE – seus alunos! – em um alvoroço, que se chamava “Gincana Mabeana”. Eu nunca participei dela, mas fui assistir. Aliás, todos nós nos fazíamos presente. O destaque, na minha opinião, sempre foi a Nina…

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ESTA DATA É NOSSA, POR ISSO, EU A CELEBRO! PARABÉNS À TODOS!

31
mar
15

BLOG DO PIMENTA 450 ANOS


QUEM É CARIOCA

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     Claro que não precisa nascer no Rio para ser genuinamente carioca, ainda que haja nisto um absurdo etimológico. É notório que há cariocas vindos de toda parte, do Brasil e até fora do Brasil.

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     Ainda há pouco tempo chamei Armando Nogueira de carioca do Acre, nascido na remota e florestal cidade de Chapurí. Armando conserva, de resto, a marca acriana num resíduo de sotaque nortista, cuja aspereza nada tem a ver com a fala carioca, que não cospe as palavras, mas antes as agasalha carinhosamente na boca. Mas não é maneira de falar, ou apenas ela, que caracteriza o carioca.

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     Há sujeitos nascidos, criados e vividos no Rio – poucos, é verdade – que falam cariocamente e não tem, no entanto, nem uma parcela de alma carioca. Agora mesmo estou me lembrando de um, sujeito ranheta, que advém de sua azia espiritual. Este, ainda que o prove com certidão de nascimento, não é carioca nem aqui nem na China.

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     E assim, sem querer, já me comprometi com uma certa definição do carioca, que começa por ser não propriamente, ou não apenas um ser bem humorado, mas essencialmente um ser de paz com a vida. Por isso mesmo, o carioca, pouco importa sua condição social, é um coração sem ressentimento.

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     Nisto, como noutras dominantes da biotopologia do carioca , há de influir fundamentalmente a paisagem, ou melhor, a natureza desta mui leal cidade do Rio de Janeiro.

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     Aqui, mais do que em qualquer outro lugar, é impossível a gente não sofrer um certo afeiçoamento imposto pela natureza. A paisagem, de qualquer lado que o olhar se vire, se oferece com a exuberância e a falta de modos de um camelô.

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     O carioca sabe que não é preciso subir ao Corcovado ou Pão de Açúcar para ser atropelado por um belo panorama (belo panorama, aliás, é um troço horrível). Por isso mesmo, nunca um só carioca foi assaltado no Mirante Dona Marta, que está armadinho lá em cima à espera dos otários, isto é, dos turistas.

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     Pois, o carioca não é, o que ele menos é – é turista. O que caracteriza o carioca é exatamente uma intimidade com a paisagem, que o dispensa de encarar, por exemplo, a Praia de Copacabana com um olhar que não seja rigorosamente familiar. O carioca não visita coisa alguma, muito menos a sua cidade, entendida aqui como entidade global e abstratamente concreta. Ele convive com o Rio de igual para igual e nesta relação só uma lei existe, que é a da cordialidade. O carioca está na sua cidade como o peixe no mar.

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     Por isso, qualquer sujeito que não esteja perfeita e estritamente casado com a paisagem ou, mais do que isto, com a cidade, não é carioca – é um intruso, um corpo estranho. E é isto que transparece à primeira vista, não adianta disfarçar.

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     O carioca autêntico, o genuíno mesmo, esse que chegou ao extremo de nascer no Rio, esse não engana ninguém e nunca dá um único fora – sua conduta é cem por cento carioca sem o menor esforço. O carioca é um ser espontâneo, cuja virtude máxima é a naturalidade. Não tem dobras na alma, nem bolor, nem reservas. também pudera, sua formação, desde o primeiro vagido, foi feita sob o signo desta cidade superlativa, onde o mar e a mata – verde e azul – são um permanente convite para que todo mundo saia de si mesmo, evite a própria má companhia – comunique-se.

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           Sobre este verde e este azul, imagine-se ainda o esplendor do sol que se apaga, mas não se ausenta. Diante disto e de mais tudo aquilo que faz a singularidade da beleza do Rio, como não ser carioca?

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      Apesar de tudo, há gente que consegue viver no Rio anos a fio sem assimilar a cidade e sem ser por ela assimilada. gente que nunca será carioca, como são, por exemplo Dom Pedro II e Vinícius de Moraes, autênticos cariocas de todos os tempos, segundo Afonso Arinos. A verdade é que nem todo mundo consegue a taxa máxima de “cariocidade”, que tem, por exemplo, um Aloysio Salles. No extremo oposto, está aquele homem público eminente que vi passeando outro dia em Copacabana. Ia de braço com a mulher e, da cabeça aos sapatos, como dizia Eça de Queiroz, proclamava a sua falta de identificação com o que se pode chamar “carioca way of living”. Sapatos, aliás, que não eram esporte, ao contrário da camisa desfraldada. Esse é um que não precisa abrir a boca, já se viu que está no Rio como uma barata está numa sopa de batata, no mínimo por simples erro de revisão.

     “Quem é carioca”, Otto Lara Resende, Antologia Escolar de Crônicas, Edições Ediouro, Rio de janeiro, 1975.

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O mineiro Otto Lara Resende (1922-1992), Jornalista,Escritor, Membro da Academia Brasileira de Letras.

Créditos das Fotos, em sequência: 1 – Ângulo do Cristo Redentor e a cidade do Rio de Janeiro; 2 – O jornalista e cronista esportivo Armando Nogueira (1927-2010); 3 – O Prefeito do Rio de Janeiro, o carioca Eduardo Paes; 4 – Este colunista, o carioca Carlos Pimenta; 5 – A praia do Arpoador, à noite; 5 – O centro da cidade do Rio de Janeiro, fotografado da baía da Guanabara; 6 – O mirante Dona Marta, na apresentação da banda Natiruts; 6 – Tradicional Cartão-Postal de Copacabana – 7 – O presidente da Câmara dos Deputados, o carioca Eduardo Cunha; 8 – O Rei do Rio Adilson sacramento, 50 anos de Cidade Maravilhosa; 9 – O pôr do sol em Copacabana; 10 – Os escritores Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos.




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