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ARTHUR ANTUNES COIMBRA, O ZICO!


HOJE, 3 DE MARÇO DE 2012, ZICO COMEMORA 59 ANOS DE IDADE. Atualmente conduzindo a seleção do Iraque, que caminha a largos passos rumo à Copa do Mundo de 2014, o ídolo máximo do Flamengo é devidamente reverenciado pelo BLOG DO PIMENTA, nesta transcrição de reportagem realizada, em 28 de julho de 2010 pelos jornalistas Malu Gaspar e João Marcelo Erthal, para a revista “VEJA“. O BLOG DO PIMENTA se junta aos demais 39.999.999 torcedores do Flamengo, para neste dia, feriado da Nação Rubro-Negra, desejar um Feliz Aniversário, ao eterno “Galinho de Quintino“! Nesta entrevista, Zico abre o coração. Em cada linha, em cada frase, é possível entender porque se tornou “o Flamengo, em carne e osso“!

O FLA NÃO ACEITA BANDIDO

No comando do Futebol, Zico diz que a crise de valores no clube é fruto de anos de leniência e que não quer jogador “acima do bem e do mal”.

Um dos ícones do futebol brasileiro, o brasileiro Arthur Antunes Coimbra, o Zico, 57 anos, está diante talvez do maior de sua carreira desde que parou de jogar em 1994. Há dois meses como diretor executivo do Flamengo, onde estreou no futebol e viria a se consagrar como o maior ídolo de todos os tempos, ele está iniciando uma verdadeira cruzada para sepultar a cultura de permissividade que se disseminou no clube nos últimos anos. Assim que assumiu, Zico se viu diante da mais séria crise pela qual o Flamengo já passou, quando o goleiro Bruno, o capitão do time, foi preso como o principal suspeito de um bárbaro assassinato. Com passagem por seis países como jogador ou técnico, ele resume: “O craque tem obrigações a cumprir como qualquer profissional – não está acima do bem e do mal”.

Como evitar novos casos policiais no Flamengo? É necessário, de uma vez por todas, fazer com que os jogadores entendam o básico. Como qualquer outro profissional, eles têm um conjunto de regras a seguir, e isso deve ser inegociável. Entenda-se por regras não só comparecer aos treinos e aos jogos no horário combinado, o que às vezes não acontece, como também dar bom exemplo. Estamos falando, afinal, de ídolos admirados e imitados por milhões de brasileiros. Eles precisam ter conduta à altura desse papel. Cabe naturalmente ao clube, que é o empregador e se pretende uma instituição séria, obriga-lo a agir como se espera. Não sou ingênuo a ponto de achar que, assim, os jogadores deixarão de cometer desvios de conduta. Mas, com os limites claramente estabelecidos, eles não poderão mais fazer o que bem quiserem, sem uma punição severa por parte do clube. A crise de valores que se instaurou no Flamengo tem reação direta com a leniência. Em alguns casos, certos jogadores tomaram o comando.

Como mudar essa lógica da permissividade? A experiência não deixa dúvidas de que o caminho mais acertado passa pela maior rigidez nos contratos, que devem prever multas, suspensões e até expulsões do jogador. Daqui para a frente, será assim no Flamengo. É um começo. De modo geral no Brasil, os jogadores têm pouquíssimas obrigações com os clubes. Olha que eles ganham verdadeiras fortunas pelo trabalho que fazem. Discordo daqueles que acham que o clube não deve intervir na vida privada dos atletas sob nenhuma hipótese. Quando, de algum modo, a conduta de um jogador longe dos gramados começa a atrapalhar seu desempenho em campo e ainda mancha a imagem da instituição, isso passa a ser, sim, um problema do clube, que precisa resolve-lo sem passar a mão na cabeça de ninguém.

Como a situação de desmando chegou a esse ponto no Flamengo? As conquistas recentes mascaram questões graves, que ficam relegadas a um segundo plano. Digo que as vitórias do Flamengo, de certo modo, deram sinal verde para que os jogadores vivessem sob suas próprias regras, e não sob as do clube. Enquanto ganhávamos títulos, eles faziam suas farras sem nenhuma restrição. Chegou-se a um estágio em que um técnico marcava um treino para a manhã e aparecia sempre alguém ao lado para dizer:”É melhor colocar para mais tarde, porque senão vai dar problema”. Qual era exatamente o problema? Alguns atletas, que recebiam tratamento privilegiado, simplesmente não queriam estar tão cedo no clube. Eles tinham a sua demanda atendida. Um absurdo. Sei que muitos jogadores não concordavam com o que estava acontecendo. Imagine como se sentia um atleta que cumpria suas obrigações diante desses outros repletos de vantagens.

Mais do que jogadores folgados e descumpridores de regras, o Flamengo também via seus ídolos envolvidos com criminosos. Como o clube deve se portar em casos como esses? Para mim, o jogador que faz isso não merece vestir a camisa do time, por mais talentoso que ele seja. É papel do clube, como instituição de tanto peso, zelar também pelos valores. Está claro que o mau comportamento dos jogadores-celebridade contamina a todos. Até mesmo aqueles meninos que estão começando a jogar bola agora. Eles passam a achar que o modelo desregrado é o que deve ser seguido. O clube precisa ser bem didático aí, para mostrar, logo de saída, que está errado. Quando comecei no Flamengo, assisti a uma cena que foi marcante. Havia um garoto, conhecido como Pelezinho, que era a maior promessa da equipe. Um dia, ele tratou tão mal o técnico que acabou expulso do time. O resultado? Todos entenderam, enfim, a noção de hierarquia, tão relevante para o esporte. Foi educativo. Pelezinho não deu em nada.

O senhor vê muitas diferenças entre a realidade dos clubes no passado e hoje? Acho que os clubes eram mais cientes de seu papel de transmitir valores a meninos pobres e sem uma base familiar sólida. O perfil dos treinadores das categorias de base mudou muito. Além de mais experientes, técnicos, como os que eu tive no Flamengo lembravam a toda hora o significado de ser um atleta e honrar o nome do time. Os treinadores de hoje estão mais preocupados em subir na carreira e ganhar dinheiro do que propriamente formar jogadores. Não há como essa mentalidade levar uma equipe muito longe.

Por que o senhor diz isso? O Bom desempenho em campo é uma combinação de talento com muito treino e cabeça no lugar. Só talento não resolve. Os times com resultados mais sólidos nos últimos anos foram justamente aqueles que se preocuparam em formar atletas no sentido mais abrangente. Para mim, o melhor exemplo vem do São Paulo. Sob o comando de Telê Santana (1931-2006), eles implantaram um eficiente centro de formação de jogadores que, entre outras coisas, ensina o exato valor de vestir uma camisa oficial. Tal era a obsessão de Telê nessa função que ele chegava a dormir nessa escola que montou. Técnicos assim se tornam raros. É um problema. São esses que ajudam a mostrar que eles têm suas obrigações como qualquer outro profissional – e que não estão acima do bem e do mal, como muitos se vêem.

O senhor acha que essa visão está mais disseminada entre os atuais jogadores? Sempre houve jogadores deslumbrados com prestígio, fama, dinheiro, e sem uma noção clara de limites. O que talvez agrave isso hoje são os contratos milionários, que fazem com que os atletas se sintam ainda mais cheios de poder. É uma distorção. Pior ainda quando os jogadores usam esse dinheiro para fazer negócios com bandidos, algo inadmissível. Eles alegam a origem humilde para justificar a proximidade com os criminosos. Pura desculpa. O subúrbio carioca onde eu morava era tomado de bicheiros, e jamais me passou pela cabeça me unir a eles em suas atividades ilegais. São questões de princípio muitas vezes desprezadas no mundo do futebol. Cabe ao clube orientar esses atletas, até psicologicamente.

O Flamengo faz isso? Tenta, mas às vezes não funciona. O psicólogo chama o jogador para uma sessão e o cara simplesmente não aparece. Ele não quer ser ajudado, e o resultado são escândalos como os que temos visto nos últimos meses.

Foi assim com o goleiro Bruno? Prefiro não falar deste caso em particular. Até porque ele extrapola muito a alçada do clube. É um assunto de polícia. No que cabe ao Flamengo, o clube precisa deixar bem claro daqui para frente, que, para ostentar a faixa de campeão, não basta jogar cara ou coroa no início da partida. É preciso exercer uma efetiva liderança sobre o grupo, respeitar a torcida antes de tudo e ser o primeiro a dar bom exemplo. Quem não entender isso não ficará no clube. Nesse processo de limpeza, cabe aos empresários desses jogadores também fazer a sua parte.

Qual é exatamente a parcela de responsabilidade dos empresários nesse processo civilizatório? Administrar a carreira de um jogador de um jogador de futebol não é só cuidar da parte financeira. No meu ver, deve também envolver uma assessoria, digamos, de víeis educativo. Eles podem ajudar a manter a cabeça do atleta no lugar e cultivar nele valores como a disciplina e o respeito à autoridade. Isso é raro nesse meio. Já cansei de ver empresário oferecendo dinheiro ao técnico para escalar o jogador dele. Eles são o próprio contra-exemplo.

Com base em sua experiência internacional, o senhor diria que os clubes brasileiros têm muito a aprender com os estrangeiros? É preciso profissionalizar a gestão aqui. A primeira lição que se depreende de países como o Japão diz respeito aos contratos, muito exigentes e precisos quanto aos direitos e obrigações dos jogadores e técnicos. Para se ter uma idéia, como treinador eu era até proibido de jogar pelada sem antes consultar o clube. Pode parecer exagero, mas tinha uma razão de ser. Os dirigentes de lá entendiam que esse tipo de restrição era uma maneira de zelar pela minha integridade física e, assim, garantir que a equipe não ficasse sem comando. Acho natural que um bom salário venha acompanhado de exigências. Em minha volta ao Flamengo, cheguei a tomar um susto com os contratos. Eles seguem o modelo genérico da Confederação Brasileira de Futebol, a CBF. Basicamente, não exigem nada.

Em outros países, os atletas são mais disciplinados do que no Brasil? Na média, sim. Isso tem relação direta com a cobrança. No caso do Japão, valores que estão muito presentes na sociedade, como o apreço às regras e a hierarquia, se manifestam no futebol de forma bastante acentuada – o que é bom. Mas não é em todo lugar do mundo que funciona assim. Na Rússia, quando eu treinava o CSKA, um dos jogadores mais promissores do time começou a passar as madrugadas em festas e a faltar aos treinos. Como era esperado, seu rendimento despencou. Quando decidi corta-lo do time, ele veio falar comigo irado, pedindo satisfações. Em quarenta anos de futebol, sabe quantas vezes me queixei com um treinador por ter ficado no banco? Zero. É uma questão de postura que alguns dos atuais jogadores, alçados à condição de celebridade, ignoram.

O senhor ficou decepcionado com a atuação da seleção brasileira nesta Copa? Acho que não me cabe o papel de avaliar o trabalho de colegas. Posso dizer que, desde o início, eu apostava na seleção espanhola. O futebol deles é do jeito que eu gosto. Eles não tem medo do jogo e não entram em campo pensando em outra coisa que não seja aquela partida. São focados. Acho que a vitória da Espanha fará muito bem ao futebol mundial.

O senhor sonha um dia dirigir a seleção brasileira? Ainda que quisesse, seria impossível. Está claro que eu e o Ricardo Teixeira não temos nenhuma afinidade. Além disso, meu compromisso, até 2012, é com o Flamengo. Sei que será duríssimo, mas não tinha como recusar como esse justamente no clube em que me formei e tive mais alegrias no futebol.

Outros ex-jogadores chegaram ao Flamengo com a mesma missão de fazer um choque de ordem, mas saíram decepcionados, dizendo que seria impossível implantar uma gestão profissional no clube. Seria Ingenuidade minha achar que posso transformar, de uma hora para outra, uma cultura de leniência tão arraigada no clube. Não vou instaurar uma ditadura, mas estou preparado para que algumas de minhas posições e atitudes suscitem polêmicas. Tenho a independência necessária para mudar e convicção sobre os rumos a tomar. Com tantos anos passados no clube, sei bem o que a torcida quer. Mais do que um time vitorioso, espera-se que o Flamengo volte a ser um celeiro de jogadores que entendam, com todas as letras, o que é ser um atleta de verdade.

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